quinta-feira, 13 de junho de 2013

A revolução será mal televisionada



Nos telejornais, uma Polícia mantenedora da ordem e da paz; nas ruas, tiros com balas de borracha, gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, detenções, porrada.


Camila Petroni e Gustavo Menon,


Damos o pontapé inicial em nosso texto fazendo um trocadilho com o título do documentário irlandês, de 2002, dirigido por Kim Bartleyle Donnacha O'Briain, que retrata a derrubada sofrida por Hugo Chávez na Venezuela, em abril do mesmo ano. Em A revolução não será televisionada, os diretores abordam o caráter golpista dos grandes canais televisivos venezuelanos, que aliados à burguesia do país, efetivamente, protagonizaram um verdadeiro Golpe de Estado em Caracas. Nenhum título para o nosso texto caberia melhor, no momento - lembrando que corremos o risco de sermos acusados de vândalos pelo uso da palavra “pontapé”, acima.

Algumas manifestações populares foram organizadas, em São Paulo (e Brasil afora), quando estabelecido para o início de junho de 2013 o aumento das passagens de ônibus, metrô e trem, de R$ 3,00 para R$ 3,20. O governo alega que o valor não subiu acima da inflação acumulada desde o ajuste feito no início de 2011 (medido pelo IBGE, o IPCA – base da inflação oficial -, aponta o acúmulo de 15, 5%. Seguindo o índice, a passagem ficaria em torno de R$ 3,46). Ainda assim, como trazia um manifestante em seu cartaz, em um dos atos nas ruas da cidade: “R$ 3,00 é um roubo, R$ 3,20 é um estupro”. Além dos R$ 0,20 arrancados dos bolsos da população, até quando iríamos suportar as situações precárias nas quais vivemos, isso somente no âmbito do “transporte público” (sem contar os outros milhares de pontos que devem ser ultrapassados, mudados, melhorados)? Quem passa pelos lados da Avenida Paulista esbarra como uma frase, cravada a picho, em uma das entradas dos infinitos túneis paulistanos: “Todo vagão tem um pouco de navio negreiro”. Alguém duvida? Extremamente reflexiva, em vários aspectos.

 

Os atos contra o aumento das passagens organizados, principalmente, pelo Movimento Passe Livre tiveram início no dia 06 de junho. Nas ruas, 4 mil pessoas; na TV, 2 mil, no máximo (algumas publicações da mídia impressa – também com acesso virtual - acusaram 500 participantes, quase 8 vezes menos). Nas ruas, eram sujeitos lutando por condições de vida melhores, tentando superar as catracas, enfrentando o monstro capital. Na TV, eram vândalos, sem causa, sem lenço, sem documento, sem R$ 0,20 a mais para gastar em cada viagem de ônibus, metrô ou trem. Nos telejornais, uma Polícia mantenedora da ordem e da paz; nas ruas, tiros com balas de borracha, gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, detenções, porrada. Choque(s) por toda a parte.

No sétimo dia do mês, nada de descanso (não somos deuses, afinal), mas povo nas ruas, de novo, em massa, percorrendo quilômetros da cidade atrás de dignidade. Novos trajetos, novas vias paralisadas, mais de 5 mil pessoas estacionaram a pauliceia. Desconfortável para uns, necessário para outros. Na mídia televisiva (bem como na maior parte da mídia impressa), metade disso foi anunciado. E a história se repetiu (“como farsa”): PM heróica, poucos milhares de rebeldes soltos por aí e cidadãos-de-bem querendo ir e vir pelas ruas interditadas com pessoas e fogueiras. “Pelo segundo dia seguido, um protesto contra o aumento das passagens de transporte público provocou muita confusão em São Paulo”, é como o âncora de um telejornal de influente emissora abre a matéria sobre a manifestação ocorrida no dia. Continuando, o repórter enviado de helicóptero, aos céus do local onde ocorria a manifestação, pra ver tudo com o distanciamento físico e ideológico recorrentes, afirma que “A Polícia teve que soltar bombas”. Também: “A manifestação de ontem (06 de junho), assustou os moradores da cidade”; seguido de termos como “violência” (da parte dos manifestantes), “vandalismo” e uma série de desqualificações bem aproveitadas no curto espaço de tempo dos 4 minutos médios de uma matéria jornalística. Mencionavam, enfaticamente, os valores dos prejuízos dos vidros de estações de metrôs quebrados, da depredação do carro para sorteio em um Shopping, mas não citavam o rombo que R$ 0,20 centavos por viagem de transporte público causarão ao bolso do estudante, do trabalhador e do sobrevivente de um sistema quase desumano. Também ninguém mencionou, em telereportagens da mass media, a beleza do coro popular convidando as pessoas a juntarem-se, cada vez mais, contra “o aumento” - e contra a exploração, contra a opressão, contra os abusos do capitalismo.

 

Na terça-feira, dia 11 de junho, uma ótima notícia (não para os telejornais): o movimento se fortalecera, cerca de 12 mil pessoas estavam nas ruas (o número apontado pela PM foi de 5 mil) - este é o ponto no qual devemos lembrar da Turquia, que passa por um quadro inspirador de luta popular, desde o dia 31 de maio, que enfrenta o Estado a favor da liberdade (começou na defesa do parque Gezi, que seria destruído). O número de mortos durante os protestos turcos é de 4 pessoas, até o dia 12 de junho, infelizmente, mas erra quem aposta no fim do movimento, mais forte a cada dia. Vale destacar a forte participação de jovens e estudantes no seio do movimento.

Na América Latina, estudantes chilenos preparam para hoje (13 de junho) um protesto contra o governo e a favor do ensino superior público. No país de Allende e Neruda, cabe salientar que o ensino superior é totalmente privado. O movimento estudantil informou, por meio de comunicado, que ocorrerão manifestações em Santiago, a capital do Chile, e nas principais cidades do país.

 http://www.esmaelmorais.com.br/wp-content/uploads/2013/06/pm_estudantes.jpg

Voltando às terras tupiniquins, o ato do dia 11, supramencionado, foi extremamente violento e, aqui, mais uma bifurcação: nos telejornais, a violência foi maior e iniciada por parte dos manifestantes. Na vida real, de carne , osso e olhos ardentes, o povo sofreu na mão de repressão. E a TV reforçando que oito policiais saíram feridos. Pra não sermos injustos, é importante colocarmos que houve telejornalistas e apresentadores de jornais que, apesar de criticarem o “vandalismo”, apontaram o quanto o sistema de transportes públicos da cidade é precário. Uma cena desse dia de protesto foi bastante marcante: manifestantes, parados na faixa de pedestres, são atropelados por um motorista de carro (que fugiu). O fato foi mostrado, em alguns telejornais, com as imagens desfocadas (em outros, mantiveram-se claras). A pulga atrás da orelha perdura...

A mídia, como sabemos através de experiências cotidianas e inúmeros estudos elucidativos, possui influência imensurável na formação da consciência dos seres sociais, debate o qual não aprofundaremos. Mas, brevemente, queremos (re)lembrar o quanto as mudanças reais seriam mais fáceis de ocorrer se a mídia com maior acesso às pessoas fosse popular, transparente, democrática e livre.

“Um cenário de pós-guerra” se configurou na cidade, colocou uma repórter, sem precisar concluir de que lado está a imprensa hegemônica nessa conjuntura de conflitos. A propósito, estamos saturados de números cortados, de manifestantes ocultados. Estamos fartos de informações errôneas chegarem a nós. Até quando as representações televisivas serão tortas? A televisão não será revolucionada? O que nos conforta é saber que as experiências concretas estão sendo vivenciadas por um número cada vez maior de pessoas, ultimamente, na célebre e velha luta de classes.

 Manifestante é detido durante protesto contra aumento da passagem no Rio de Janeiro (Crédito: Marcelo Fonseca / Brazil Photo Press / Agência O Globo)

Com o otimismo da vontade gramsciano, destacamos algumas vitórias populares, ocorridas mesmo sem o apoio da mídia televisiva: algumas cidades como Porto Alegre, Taboão da Serra, Goiânia, Aracajú e Teresina não terão o valor das passagens aumentado. Congelar o valor em São Paulo e Rio de Janeiro são os próximos passos. Outra vitória que podemos considerar são os vídeos feitos por manifestantes ou cinegrafistas diversos, disponibilizados na internet, que mostram vários, senão todos os lados dos protestos.


Camila Petroni, historiadora, assistente editorial e mestranda em História Social pela PUC-SP.

Gustavo Menon, mestre em ciências sociais pela PUC-SP e docente na Faculdade de Ciências de Guarulhos (FACIG).


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